Questões sobre faculdade de Jornalismo

02jul09

Todo final de semestre, enquanto eu guardo textos referentes às disciplinas, eu revejo as anotações dos semestres anteriores. Qual não foi minha surpresa, encontrei coisas bizarras do primeiro semestre, lá em 2006. SUSTO. Primeiro porque a imaturidade profissional era visível em tudo o que eu escrevia e anotava, mas coloquei um sorriso enorme no rosto quando vi os vídeos gravados na disciplina de Laboratório em Jornalismo (aulas com o Eduardo Pellanda e o Luciano Klöckner). O tema do debate era justamente o mesmo que discutimos hoje, a obrigatoriedade do diploma de jornalista para exercer a profissão. Naquela época, o grupo trouxe o Túlio Milmann para falar sobre a questão e, sem surpresas, disse não ser necessário diploma algum, pois em no máximo dois anos se aprenderiam coisas técnicas. Destacou, também, que seria no mercado o momento que nos moldaríamos como jornalistas, só o mercado faz jornalismo. Ah, e por que minha felicidade? Lá estava eu, meio gordinha, com minha cara de criança, de franja torta e cabelo sempre esquisito (não que eu tenha mudado muito) defendendo o diploma e a faculdade com os mesmo argumentos, um pouco tímidos, claro, que hoje. #ego.

Pois bem, ironicamente deveria ter sido o David Coimbra o convidado, pois era a respeito dele que eu queria começar o post. Este jornalista, que eu nunca simpatizei, escreveu, em sua coluna no jornal Zero Hora de 26/06/09, alguns absurdos como esses:

“O conteúdo das aulas, de tão leve, chegava a ser etéreo. Pouco aprendi no primeiro semestre. Pensei: o segundo será melhor. Não foi. Nem os demais. Até tive alguns bons professores. Mas aquele caderno de espiral permaneceu em branco. Conteúdo não é exatamente o forte da faculdade de Jornalismo.”

(…)

“Não sei bem o que são “estudos de recepção”, mas entendi o que a professora quis dizer. É que tudo isso consta no currículo do curso. Só que nada disso é de fato ensinado”.

Ah, não?  “Português, filosofia, legislação, sociologia, entre outras disciplinas”, mais “técnicas específicas, como reportagem, edição, linguagens para diferentes mídias, estudos de recepção, formas de tratar um acontecimento, considerando princípios éticos”, disciplinas às quais a professora Mágda Cunha se referia em seu brilhante texto apontando o papel das universidades, são ensinadas e debatidas por quem quer discutir, e não porque quem tem preguiça. Lembro das aulas com a professora Ana Cláudia Nascimento. Era de chorar de tão maravilhosas. Nunca vou esquecer uma frase dela em que ela fala que ainda tinha vontade de mudar o mundo e nós, estudantes, ficávamos na sala de aula tão apáticos. É, aí está. Não se culpa a universidade quando o problema está com o aluno.

Enfim. Isso além de outras asneiras (que foram glorificadas e retuitadas por colegas no twitter)*. Isso são apenas meus fracos comentários. E eu tenho um orgulho imenso de estudar na Famecos, mesmo com um bando de colegas que possuem o mesmo pensamento do Coimbra. Sinto uma felicidade enorme e sei que posso honrar o fato de estar aprendendo, estudando e me formando às custas do governo (se há alguns anos não tivesse ganho uma bolsa na PUC, provavelmente teria desistido do jornalismo). Muito melhor que isso, é ter contato com certos professores que dá mais vontade ainda de lutar pela profissão. Entre Ana Carolina Escosteguy, Leonam, Ana Cláudia Nascimento, Fábian, Celso Schröeder (este entrou na lista hoje após encerrar brilhantemente a aula de Produção em Jornal), Juremir Machado da Silva (entre alguns outros poucos que sempre me fizeram dizer ‘eu quero ser um por cento disso’) cito outro professor: o André Pase, que ministra uma das melhores aulas da Famecos e me fez ter mais admiração. Ele escreveu uma resposta maravilhosa ao texto do David Coimbra. Sabe, é nesses momentos que bate um orgulhão de estar na faculdade e ter aula com esses caras porque, sinceramente, eles são demais. E, às vezes, dá até uma vergonha de ir conversar com eles com medo de em algumas momentos falar palavras sem sentido e demonstrar ignorância. Tem muitos professores que eu admiro pra caralho, mas, provavelmente, nunca conseguirei mostrar a eles o quanto foram importantes pra mim, espero demonstrar isso profissionalmente.

Voltando ao David Coimbra, lamentável esses formadores de opinião escreverem coisas desse tipo. São os seus leitores que irão absorver isso e tomar como certo. É, percebe-se que ele não aprendeu nada em aula, não adiantaria discutir com ele grupos primários, secundários e two-step flow of communication do qual ele faz parte.

* Eu, como bolsista, achei lamentável alguns colegas que, bolsostas também, abraçaram o texto do David Coimbra como suas próprias opiniões. Oras, se tu, estudando numa universidade privada, consideras que este local não te serve pra nada, deixe o lugar para outros estudantes que, sustentados pelo governo, fariam melhor uso de hnrariam mais aquilo que ganharam.

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A Famecos também apresentou seu manifesto contra a decisão do STF. Hoje foi divulgado o vídeo manifesto.

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3 Responses to “Questões sobre faculdade de Jornalismo”

  1. 1 Francesca

    E cadê o nosso café pra gente discutir o texto? Excelente. Concordo em absolutamente cada palavra escrita.

  2. Eliane,
    Gostei muito do texto. Sinto o mesmo. Sou bolsista também e fico assustado ao notar que existem alguns colegas que não se importam o mínimo com a formação que estão tendo na universidade. Tenho um certo receio em dizer isso, pq pode parecer algo como “a minha maneira de encarar a graduação é a correta”, mas não consigo entender a visão de alguém que paga a mensalidade cara da universidade e joga fora como se fosse um passatempo sem graça.

    Sendo bem sincero, fico um pouco confuso ainda quanto à obrigatoriedade, principalmente pelo ato de inibir a mídia social comunitária. Jornais comunitários que não possuem jornalista responsável (que é caro de pagar) e revistas eletrônicas online, como o Simulações ou a minha própria Mirabolante, simplesmente não poderiam existir pq é algo ilegal. Se continuaria existindo ou não é outra história, mas estariam foras-da-lei. E se produz coisas tão legais nesses meios que realmente me pergunto se o diploma é realmente necessário em um tempo que é fácil buscar conteúdo produzido por jornalistas com qualidade ínfima em sites de fofocas e etc. Por outro lado, temos a questão da regulamentação e da qualidade da formação, o nível de cultura que absorvemos na faculdade e aquela convivência que é tão importante e que nos faz lutar para ter o diploma como obrigatório.

    Enfim, me sinto honrado em estudar na FAMECOS. Tenho professores que cada dia mais mostram que vale a pena lutar para modificar o que julgamos estar errado. E, sim. A aula da Ana Cláudia já me fez chorar também e as aulas do Pase dão um estímulo e vontade de aprender inconfundíveis.

    Bom ler a tua opinião e notar que não estou sozinho.
    Obrigado por proporcionar esta reflexão.

  3. 3 nandaetges

    Aplausos.
    Aplausos.
    Aplausos.

    Concordo.


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