A forma como a internet modificou a maneira como consumimos bens culturais, principalmente música, é um dos assuntos que mais me interessam para estudos dentro do vasto campo da cibercultura.  Vou deixar de lado três etapas dentro da cadeia musical, criação, produção e distribuição, para me concentrar na divulgação, já que a internet tornou-se um dos principais meios atualmente para qualquer artista, principalmente independentes, chamar a atenção do público e divulgar sua arte.

A questão não é mais abrir ou não o conteúdo e divulgá-lo livremente na rede; agora, a pergunta é outra, como fazer isso. Afinal, se você quer ou não, pouco importa, seu conteúdo de uma maneira ou outra estará circulando livremente pela web.

Como chamar a atenção do público que navega pela web e fazer com que ele pare, ouça e aprecie sua música em meio a tantas informações? A criatividade não está apenas em sua arte e, sim, em sua forma de divulgação. Arctic Monkeys sempre é a ‘banda de MySpace’ preferida para se falar de divulgação pela web. Mas, há outros exemplos que eu gosto muito sobre isso, todos descobertos via social media.

O primeiro é o filme interativo The Wilderness Downtown, com música da banda Arcade Fire, lançado em setembro de 2010, um experimento do Google em HTML5, utilizando o Google Maps, que funciona da seguinte forma: você entra no site, digita o local de nascimento (não tem dados suficientes para o Brasil, então, dá pra escolher qualquer outro lugar) aí começa uma coisa linda e mágica 🙂 Este vídeo reproduz a experiência que se tem, ó:

O segundo eu vi esta semana, é um vídeo de lançamento do single Knight of Wands, da banda indie Au Revoir Simone.  O clipe é como um livro interativo, que você vai escolher como quer colorir o vídeo.

E o terceiro é o projeto The Ugly Dance, da banda sueca Fulkultor. O site interativo permite criar um boneco com seu rosto para a ugly dance. Há uma infinidade de formas para fazê-lo dançar. Também dá pra baixar a música e criar seu próprio avatar, mas para isso é preciso pagar um ou cinco dólares para a banda.

Usar a web e, consequentemente, fazer uso das redes socais para espalhar um conteúdo é essencial para um artista. Quando a música sai do suporte e torna-se um bem facilmente compartilhável por ser digital, o alcance que ela pode ter é muito grande numa sociedade em rede e muito maior do que as formas de divulgação em suportes físicos, atreladas ao tradicional sistema das indústrias fonográficas. Para artistas independentes, a web possibilita não só liberar seu conteúdo sem precisar de intermediários, mas uma forma de chamar a atenção do público para sua música. Mais do que liberar, agora é a criatividade que move o jogo. E esses vídeos interativos aí são mais um ponto para uma ideia que eu venho pensando ultimamente: não é só o clássico DIY (do it yourself) que impera na rede, o DIWO (do it with others) é a consequência na divulgação e consumo da música em rede.


O livro ‘Por que as comunicações e as artes estão convergindo?‘, de Lucia Santaella, é uma leitura obrigatória para quem trabalha com comunicação e arte, de uma forma geral, como produção de cultura. Como a autora assinala, essa convergência faz parte do período pós Revolução Industrial, já que desde o Renascimento havia uma separação entre belas artes e a arte popular. A partir do século XIX e posterior intensificação no século XX, a cultura perdeu seu status de belas artes e belas letras para ser dominada pelos meios de comunicação. É esse o momento em que as máquinas passaram a produzir bens culturais.

“(…) tese que venho defendendo desde 1980, sobre a inoperância das separações rígidas entre cultura erudita, popular e de massas, que dizer, cultura de massas não deve ser vista como uma terceira forma de cultura. (…) A comunicação massiva deu início a um processo que estava destinado a se tornar cada vez mais absorvente: a hibridização das formas de comunicação e cultura”.

Também destaca-se a diferença entre a cultura de massas, resultado da produção dos meios de comunicação de massa, que servem apenas para consumo, e de cultura das mídias, onde há participação de diferentes esferas da sociedade na produção de bens culturais.

No momento em que a cibercultura ensaiava seu crescimento na sociedade pós-moderna, alguns tópicos já eram lançados para o futuro dos bens culturais, como pluralidade de estilos, intertextualidade, complexividade, ratificando o fim dos limites entre artes e mídias, que além de descartar esse limite, substitui a genialidade do produto final pelo engenhosidade  do processo de contrução da arte.


No recente II Fórum da Cultura Digital Brasileira, em São Paulo, Gilberto Gil foi um dos grandes nomes que passaram pelo evento e debateram a cultura digital atual. Este vídeo, particularmente, Gil critica o projeto de lei do senador Eduardo Azeredo, PL 84/99 aprovado no Senado em 2008, mais conhecido por Lei Azeredo ou AI-5 Digital (também escrevi mais sobre isso aqui).

Também rolou no Fórum uma carta em defesa da liberdade na internet. Assinei a carta por lá, mas não tinha encontrado ainda ela online, achei aqui via Twitter.

Carta do Fórum da Cultura Digital em Defesa da Liberdade na Internet

A Internet deve continuar livre. A liberdade é que permitiu criar um dos mais ricos repositórios de informações, cultura e entretenimento de toda história. Nós, defendemos que a rede continue aberta. Defendemos que possamos continuar criando conteúdos e tecnologias sem necessidade de autorização de governos e de corporações.

Não admitimos que a Internet seja considerada a causa da pedofilia. Denunciamos as tentativas de grupos conservadores em superdimensionar o potencial criminoso da Internet para criar um estado de temor que justifique a supressão de direitos e garantias individuais. Alertamos a todos que estas forças obscuras querem aprovar no final desta legislatura o AI-5 Digital, substitutivo PL84/89 antigo PLS 89/03+ redigido pelo Senador Azeredo.

Não admitimos que as pessoas sejam obrigadas a se cadastrar para navegar na rede. Consideramos que a vinculação de um número IP a identidades civis é inaceitável. Não queremos ser uma China. Controles exagerados na rede poderão sufocar a sua criatividade e implementar o vigilantismo que é democraticamente insustentável.

Os internautas brasileiros construiram colaborativamente um marco civil que define direitos e deveres dos cidadãos nas redes digitais e rejeitam uma lei que sirva aos interesses apenas dos banqueiros e da indústria de copyright. A diversidade e liberdade são a base de uma comunicação democrática. O acesso à Internet é um direito fundamental.

Abaixo o AI-5 Digital. São Paulo, 15/16 de novembro de 2010.


Não gosto do termo ‘pirata’ para falar de quem compartilha arquivos digitais, mas, na verdade, nós próprios nos chamamos assim porque é … divertido. Que o diga o The Pirate Bay! Não adianta dizer que você nunca baixou uma música, nunca baixou um filme por torrent, nunca foi na Discografias do Orkut ou xingou muito por um link do RapidShare expirado. Todos nós baixamos, todos nós compartilhamos, todos nós somos piratas, se é assim que nos chamam. Mas assim como Hollywood transformou um pirata (de verdade) num cara legal e descolado, até uma inocente garotinha pode ser infratora 🙂

Achei essa imagem nesse blog, da Kris Efe.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Queria skins para laptop na minha versão, obviamente 🙂


Descobri que eu adoro participar de fóruns. Correr de uma palestra para outra, conhecer gente de vários lugares com um monte de ideias e projetos legais e encontrar pessoalmente arrobinhas da vida virtual.  Além de tudo isso, o 2º Fórum da Cultura Digital Brasileira (que acabou hoje) me trouxe uma coisa nova: apresentar minha monografia num espaço de pesquisas acadêmicas dentro da programação oficial do evento.

Tenho verdadeira paixão por estudar práticas culturais na era digital, principalmente quando falar delas aproxima o debate do copyright. Foi isso que motivou meu estudo de caso sobre o The Pirate Bay na FSP e é isso que vai motivar meu mestrado, mas não mais com foco num objeto como o TPB, quero algo nacional. E o Fórum me apresentou mil e uma possibilidades de pesquisa. Ainda tenho muito que estudar para chegar lá! =)

Por lá, encontrei a Helena Klang, nome que já era conhecido pra mim por causa desse artigo sobre o Pirate Bay na revista Cibercultura. Ela apresentou a pesquisa do seu mestrado na UERJ, estudos esses que me apresentaram novas possibilidades e um novo olhar para a cultura do compartilhamento.

De acordo com Helena, essas práticas de compartilhamento de arquivos digitais representam uma antropofagia, dentro de um ciclo que muda a cada 40 anos: em 1928 com o Manifesto Antropofágico, escrito por Oswald de Andrade, em 1968 com a Tropicália e em 2008 com o Remix (Lessig). A abordagem é ótima, já que a ideia é que isso representa um canibalismo cultural. Em especial o remix, ao escolher algo e remixar com algo próprio (primitivo), chegamos no bárbaro tecnizado. E esse ato antropofágico, de consumir uma parte ou uma totalidade de algo, aproxima as discussões sobre os direitos autorais na atualidade. E por que estudar isso com um foco nas práticas nacionais? Porque o Brasil está na liderança da cultura digital.  E vale lembrar que “a propriedade intelectual é o petróleo do século XXI”, como sentenciou Mark Getty, bem citado pela própria Helena.

O filme “A RIP Remix Manifesto” é um pilar para essa pesquisa da Helena Klag, que me deixou muito curiosa para ler assim que pronta. Como eu falei para ela no Fórum, essa nova abordagem abriu novos horizontes para pensar na realidade dessas práticas culturais de compartilhamento de arquivos online. É muito bom encontrar pessoas que estão estudando e pesquisando algo que eu estou bem animada para estudar e pesquisar também.

No blog do evento tem MUITA coisa do que aconteceu em São Paulo. Passa lá e depois vem discutir coisas legais por aqui!

Bom, depois tem mais. Alguns toques sobre copyright e a Lei Azeredo.

=)


Começou hoje e vai até quarta-feira, 17, o Fórum da Cultura Digital Brasileira. O evento será realizado na Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

O Fórum busca discutir como as novas tecnologias transformam a cultura e a democracia. Para isso, conecta profissionais, acadêmicos, governantes e demais pessoas que tenham ligação ou interesse com a cultura digital para sustentarem essa iniciativa e cruzarem ideias e experiências.  O evento também reúne as iniciativas de cultura e comunicação no país que estão conectadas pela rede CulturaDigital.br, lançada em julho de 2009. Não é à toa que o nome do evento traz o slogan a rede das redes”.”

Este ano, o Fórum abriu um espaço bem bacana para experiências com pesquisa em cultura digital. E eu vou pra lá, apresentar meu trabalho de conclusão de faculdade: Jornalismo e cultura digital: um estudo de caso do The Pirate Bay na Folha de S. Paulo.

Boa sorte pra mim 🙂


Esta semana, assisti o filme The Social Network, que conta a história do Facebook.  No Brasil, esse filme só chegará aos cinemas em DEZEMBRO, meses depois da estreia norteamericana (ainda não me acostumei com essa palavra na correção ortográfica). O filme está sendo comentado por muita gente, não só pelo pessoal do online ou redes sociais, afinal, Zuckerberg é o bilhionário mais jovem do mundo e aí não é só mídia social em jogo. E mais do que a criação e ascensão da rede social mais dominante no momento (mais de 500 milhões de usuários no mundo) o filme traça um perfil de vida de seu criador, Mark Zuckerberg.

Não vou falar do filme, óbvio, não sou spoiler (hehe). Quando ele chegar no Brasil eu pretendo revê-lo e comentarei. Mas o foco desse post é pirataria x distribuição de filmes no mundo.

Oras, se o mundo é plano (Thomas Friedman feelings), se estamos numa globalização 3.0, se comportamento e tendências acompanham a movimentação social ao redor do planeta, por que ainda pensar numa distribuição horizontal dos filmes, heim?

Aliás, se o Facebook é um filme de nossa época, de nossa geração, porque chegar no Brasil tanto tempo depois? É óbvio que ansiedade nenhuma vai esperar a lógica das distribuidoras e produtoras. Ansiedade não. É óbvio que a cultura digital não acompanha esse sistema. Por isso nós baixamos. Porque queremos ver agora também. Porque somos assim. Porque estamos esperando esse modelo jurássico se adequar ao mundo digital atual. Bom, essa é uma das questões no meio desse “ringue” usuários x indústria e vai demorar um bom tempo até termos um resultado final. A briga será dura, mas os dois lados podem sair ganhando, sem um ou outro ostentar vitória.

Update: mais um motivo para o tráfego em redes p2p da América Latina ser o maior do mundo.